Experiência leva “Melhor em Casa” a Congresso Internacional

Profissional de Saúde da equipe do Programa Melhor em Casa do Município de Corumbá participará, neste final de semana, do 13º Congresso Internacional da Associação Brasileira Rede Unida, em Manaus. Considerado o principal congresso de saúde pública promovido em território nacional, a 13ª edição do evento traz como tema “Faz escuro, mas cantamos: redes em re-existência nos encontros das águas”. O campus da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) sediará o congresso que começará na manhã de 30 de maio e será encerrado na tarde de 02 de junho.

 

Nos quatro dias de evento, a nutricionista Marcela de Barros Por Deus vai expor duas experiências exitosas alcançadas pelo Melhor em Casa com pacientes de Corumbá. A equipe do programa resolveu submeter dois trabalhos para análise da comissão julgadora do congresso que acabaram sendo aprovados. Além da nutricionista, compõem o Melhor em Casa no Município um médico, enfermeira, três técnicas em enfermagem, psicóloga, fisioterapeuta, assistente social e motorista.

 

Uma das experiências a ser divulgada pela equipe será a que aconteceu com paciente idosa que está inserida no Melhor em Casa desde agosto de 2017. O Dr. Riad Hamie, médico da equipe, contou que a paciente passou a ser assistida pelo programa por causa de infecção generalizada causada por sequelas de erisipela bolhosa. A paciente começou tratamento por causa de ferida extensa e profunda ao ponto de ser possível observar músculos e tendões. A ferida começava na parte posterior do membro inferior esquerdo, iniciando na coxa, até o terço inferior da perna. A erisipela bolhosa é provocada por bactéria que penetra no organismo através de alguma ferida, micose ou até mesmo picada de inseto.

 

“Nós temos bactérias na nossa pele que são protetoras, mas, se elas penetrarem em nosso organismo, pode ser extremamente patológico. Essa infecção por erisipela bolhosa pode ser disseminada nos tecidos vizinhos, segue por contiguidade, depois invade o sistema linfático e o sistema circulatório e a pessoa entra em infecção generalizada que foi como a gente pegou a paciente para tratá-la”, explicou Dr. Riad.

 

O tratamento da ferida teve início em agosto de 2017 com pomada disponibilizada pelo SUS. No entanto, não estava oferecendo a resolução que a equipe multiprofissional do Melhor em Casa esperava. Os profissionais, então, resolveram testar outro medicamento disponível no mercado que passou a ser usado na paciente em novembro. Trata-se do Hidrogel com Alginato de uma fabricante brasileira. Em seis meses de tratamento, a evolução do quadro da paciente foi “galopante”, nas palavras do Dr. Riad. 

 

“Tivemos muito trabalho no início, até que conseguimos parceria com a fabricante da pomada e entramos com esse tratamento. Fomos relatando, fotografando e enviando para a empresa”, relatou o médico. Representantes da fabricante trouxeram para o Programa Melhor em Casa mais bisnagas do produto que estão sendo utilizadas na paciente. Uma bisnaga do gel, de 80 gramas, custa em média R$ 86,00 no mercado. Para uma ferida como a da paciente, eram necessárias, no início, 01 bisnaga ao dia, custo esse muito caro para a paciente absorver. Com o produto existente no SUS, era necessário fazer três curativos por dia, com o gel se faz apenas um.

 

O médico contou ainda que a equipe logo percebeu a diferença no tratamento com a mudança do produto. Em sete dias, já puderam observar melhora significativa na cicatrização e no restabelecimento geral da paciente. Todos os dias ela recebe visita do Melhor em Casa para fazer o curativo. Nos sábados, domingos e feriados há uma escala de plantão para os profissionais se revezarem no serviço. Atualmente, a ferida está quase completamente fechada.

 

Nutricionista Marcela e Dr. Riad na casa de paciente. (Foto: Clóvis Neto)

 

Iniciativa dos profissionais ajuda no aperfeiçoamento do atendimento


O segundo trabalho submetido e aprovado pelo congresso foi o realizado pela nutricionista Marcela de Barros Por Deus. Ainda no contexto do Programa Melhor em Casa, a profissional observou, no período de março a dezembro de 2017, que dos 25 pacientes cadastrados no programa, 12 apresentavam sinais clínicos de subnutrição de variadas causas, 02 estavam com sobrepeso e 07 faziam dieta por sonda nasoenteral ou gastrostomia.

 

Para Marcela, o maior desafio no tratamento era suprir a demanda nutricional dos pacientes com necessidades clínicas e laboratoriais, tendo em vista o perfil socioeconômico e cultural deles. Desses pacientes, apenas dois aderiram à dieta industrializada e/ou suplemento nutricional específico para a patologia. O problema é que a dieta industrializada e/ou suplemento não é fornecida pela rede pública, o que torna difícil a aquisição pelos pacientes devido ao custo. Os pacientes que aderem à dieta especializada prescrita apresentam uma melhora significativa nos níveis nutricionais, além de ser coadjuvante na cicatrização das feridas e/ou lesões por pressão por conta da oferta de colágeno advindo da quantidade certa de proteína presente nas fórmulas nutricionais.

 

O outro fator de dificuldade observado por ela é que os pacientes com alimentação enteral ou por gastrostomia admitidos no programa quase sempre chegam após alta hospitalar já bastante debilitados em seu quadro nutricional e a dieta que seria mais indicada é a industrializada. Culturalmente existe uma resistência por parte da família de trocar a sopa, alimento de difícil alcance nutricional na proporção necessária, por uma dieta industrializada ainda agravada pelo fato de ser mais cara e a rede pública ainda não dispor dessa estratégia.

 

“A sopa culturalmente é indicada para o doente e modificar essa percepção é um desafio”, afirmou Marcela. “A expectativa com o trabalho é sensibilizar a gestão para que possamos oferecer melhor nutrição aos pacientes em risco nutricional e que possamos, assim, contribuir para melhor e mais rápida recuperação dos pacientes assistidos pelo Melhor em Casa, consolidando um bom estado nutricional e de saúde”, completou a nutricionista.

 

Para o secretário municipal de Saúde, Dr. Rogério Leite, a iniciativa de profissionais avaliarem o próprio trabalho e sugerirem melhorias na Saúde pública beneficia consideravelmente a população. “Esse desenvolvimento no trabalho diário dos servidores da Saúde, além de ser importante para eles crescerem como profissionais, é bastante proveitoso para que possamos inserir melhorias no atendimento ao público. A gestão conta com o trabalho de todos eles e está aberta ao diálogo e ao crescimento em conjunto. Mudanças que tornem o tratamento em saúde cada vez mais eficaz, que promovam mais saúde aos pacientes, é sempre bem vista e bem-vinda por nossa gestão”, afirmou o secretário.

 

O Melhor em Casa é um serviço indicado para pessoas que apresentam dificuldades temporárias ou definitivas de sair do espaço da casa para chegar até uma unidade de saúde. É também recomendado para pacientes em situações nas quais a Atenção Domiciliar é a mais indicada para o seu tratamento. O objetivo é proporcionar a essas pessoas um cuidado em saúde mais próximo da rotina da família, evitando hospitalizações desnecessárias e diminuindo riscos de infecções. O programa, idealizado pelo Ministério da Saúde e oferecido aos municípios, é voltado a pacientes que precisam ser acompanhados com frequência maior por equipe multidisciplinar.

 

Além de oferecer toda a assistência curativa, a equipe do Programa Melhor em Casa, em funcionamento no Município de Corumbá, enxerga nessas experiências exitosas uma oportunidade de estudar os casos e divulgá-los e também como forma estratégica da otimização da gestão do cuidado.