Mulheres de Alto Impacto: empreendedorismo transforma a vida de mulheres em Corumbá

Empoderada, iluminada e batalhadora, respectivamente. Em sequência, Wania Alecrim, Joice Carla Santana e Rosana Nunes apontaram suas definições pessoais diante do público do talkshow Mulheres de Alto Impacto, realizado pela Prefeitura de Corumbá, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Sustentável, em parceria com o Sesc. Mediado pela jornalista Lívia Gaertner, essas três empreendedoras compartilharam suas experiências de vida e como o ambiente de negócios surgiu como oportunidade de transformação.


O evento reuniu, pela primeira vez, empreendedoras da fronteira para trocar experiências e encorajá-las a continuar encarando os desafios. “O caminho é aproximar as pessoas, promover discussões, assim, os empreendedores conseguem sair da rotina e refletir sobre o seu papel na sociedade”, destacou Renato Lima. “Realizamos uma pesquisa de satisfação com as participantes e identificamos que a aceitação do evento foi acima de 90%, é um excelente indicativo para nortear as próximas ações da Secretaria”.


Com um relato marcante, a empreendedora social Wania Alecrim abriu a noite: “Meu marido é pescador, passava muito tempo viajando catando iscas no Pantanal. Temos quatro filhos e eu ajudava em casa como podia. Trabalhava como doméstica e vendia jornal em frente à universidade e pensava ‘meu Deus, eu preciso dar um jeito de entrar neste prédio, só assim vou mudar a minha vida’. Morava em um cômodo e vendi os poucos móveis que tinha para pagar os estudos, precisava sacrificar algo para seguir adiante. Quando meu marido voltou de viagem, foi uma crise. Com muito sufoco eu me formei em Zootecnia e tenho orgulho das minhas escolhas, pois mudou o rumo da minha família. Três filhos são formados e um está estudando. Olhar para trás e ver o que conquistamos dá satisfação, pois o tempo provou que eu estava no caminho certo”.


A frente de projetos como Amor Peixe – o qual foi indicada ao Prêmio Cláudia e ganhou o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios – que se aproveitava do couro de peixes para a confecção de peças artesanais, Wania encara os desafios e promove as mudanças necessárias: “Com a visibilidade do projeto recebeu, eu acabei entrando em contato com uma proprietária rural que precisava estruturar uma escola rural no meio do Pantanal. O acesso era só de avião e eu topei o desafio: morei na fazenda dela por dois anos, estruturando a escola integral”.


Joice Carla Santana, empresária do turismo de pesca e cruzeiros no Pantanal, saiu do interior de São Paulo, onde trabalhava na cultura do café na produção de solados de sapato e veio à Corumbá em busca de melhores condições de vida. “Tinha 18 anos, sem perspectiva mas com muita determinação. Cheguei na cidade, desci a ladeira do Porto Geral e consegui um emprego de secretária. Foi ali que tudo começou. Eu tinha que encarar as situações com coragem e meter a cara, eu precisava acreditar em mim mesma e cumprir com a minha palavra. Aos 20 anos eu me tornei gerente da empresa e, olha, comandar uma equipe de homens em um ambiente extremamente machista não é fácil, mas conquistei o meu espaço. Não foi com vitimismo, foi com muito trabalho e firmeza. Quando começaram a questionar a minha liderança, o meu chefe deu carta branca para fazer o meu trabalho, daí as coisas mudaram e a equipe precisou ouvir a minha voz, pois a minha palavra era a final.


Quem também enfrentou obstáculos foi a jornalista Rosana Nunes. Aos 15 já despontava como repórter de rádio e, mais tarde, no telejornalismo, coordenou uma equipe de jornalistas experientes. “Imagina, eu era a moça jovem, inexperiente e baixinha no meio de profissionais bem mais velhos. Eu precisava romper essa barreira e conquistar o meu espaço, pois tinha certeza que era aquilo que eu queria. E assim foram 14 anos de TV. O jornalismo me deu um senso de responsabilidade muito grande, pois eu sabia que era o canal de informação da população e precisava ser coerente com a realidade”. Começou no rádio, passou pela televisão e foi empreender com o jornalismo online e impresso “Abrir a própria empresa foi uma necessidade e acabamos nos tornando um dos primeiros portais de notícias na região, quase não se falava em site de notícias”.


“Este evento é resposta a uma demanda crescente de empreendedoras no Município. Queremos conectar pessoas e projetos, promover o desenvolvimento regional a partir da troca de ideias e da mudança nos modelos de negócios, a partir da participação das mulheres”, resumiu o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Sustentável, Renato Lima. Para Tainá Cambará, gerente da unidade do SESC em Corumbá, a parceria é fundamental, “estamos atentos às mudanças nos negócios, até por isso a instituição passou a permitir que o MEI – microempreendedor individual tenha acesso à carteirinha a todos os benefícios disponíveis”. A secretária Especial de Cidadania e Direitos Humanos, Beatriz Cavassa, representou o prefeito Marcelo Iunes na sua fala e encorajou a plateia, composta, em sua maioria, por mulheres: “Queremos, por direito, ocupar o nosso espaço junto aos homens. Por falta de informação, medo ou até mesmo omissão, acabamos abrindo mão desse espaço”. Complementa: “Independente da sua atividade, procure ser feliz e realizada, pois essa busca por um ideal é transformador”.


Transformação também poderia ser a definição dessas mulheres que, diante dos desafios, empreenderam e transformar o local por onde passam. Joice Santana destaca as habilidades que precisou desenvolver para crescer: “Sempre estive atenta às oportunidades, então quando eu soube de um barco que estava à venda não pensei duas vezes e fui negociar. Nessa época, eu tinha a minha casa, uma moto e uma bicicleta e comprei o primeiro barco da empresa. Sabe, às vezes, as oportunidades surgem na vida, mas é preciso ter coragem para agarrá-las e foi o que eu fiz. Passamos por muitas dificuldades financeiras, mas aprendi que ser franca e negociar com os credores foi o caminho para que o meu negócio não quebrasse e elas pudessem receber. Renegociei as dívidas, cumpri minha palavra e a empresa cresceu. Acordo todos os dias pensando que hoje eu preciso ser melhor que ontem. E claro, só deu certo porque ninguém faz nada sozinho, fui muito iluminada pois as pessoas que passaram pela minha vida sempre contribuíram”.


Atualmente, a empresa de turismo Joice Tur tem 96 funcionários e três barcos próprios, sendo dois em sociedade, oferecendo turismo de pesca e cruzeiros. “E ainda há espaço no mercado, inclusive para diversificar serviços, atendendo nichos distintos de público. Comecei com a pesca, mas vi na piracema uma oportunidade de inovar em serviços e atender um público que não tinha no pantanal: as famílias. “O sucesso do cruzeiro nos mostrou que podemos ir além. Corumbá é uma terra de oportunidades, se você quiser sair do casulo, tem muita coisa para fazer”. Bem humorada, a empresária cita: “há vários setores no turismo com oportunidades, mas precisa de pessoas corajosas para querer fazer diferente”.


Dos 47 anos de vida de Rosana Nunes, 32 são dedicados ao jornalismo. Paralelamente à carreira, casou-se, teve filhos e conseguiu dar conta de tantos papéis com o apoio do marido e da família. “Se eles não tivessem dado suporte, eu não teria conseguido. Eles são os pilares que eu precisava para continuar em frente”. Joice complementa: “Estar perto de pessoas que te incentivam, corrigem, apoiam e amam faz toda a diferença na sua trajetória”.


A zootecnista Wania desenvolveu diversos projetos na carreira, conquistou uma casa decente para viver e adquiriu o primeiro carro. Atualmente, trabalha em defesa aos direitos das mulheres que sofrem com violência, paralelamente, como microempreendedora individual, oferece serviços de frete no Pantanal, com barco próprio. Para elas, o passado serviu de pilar para construir o futuro. Em setores distintos da sociedade, elas continuam avançando nas conquistas. “O caminho para mudar as coisas é a educação, pessoas instruídas são capazes de fazer escolhas”, finalizou Wania.