Com curso de Aguapé, ribeirinhos veem possibilidade de aumentar a renda

Ribeirinhos da comunidade de Porto Esperança participaram de um curso de artesanato produzido com Aguapé, planta conhecida como camalote e encontrada em abundancia no Pantanal, que despertou a possibilidade de diversificar a renda por meio do artesanato produzido. A oficina contou com a participação de 20 moradores da região, entre jovens e adultos, e foi ministrada pela técnica Catarina Guató, uma das poucas remanescentes desse saber-fazer secular.

 

O projeto é realizado pela Funarte e pelo Ministério da Cultura, por meio do programa Mais Cultura: Microprojetos Pantanal 2013, com apoio da Prefeitura Municipal de Corumbá, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (CRAS Itinerante) e da Fundação de Cultura de Corumbá, e da Fundação de Cultura do Estado de Mato Grosso do Sul.

 

No primeiro dia, o grupo de alunos saiu de barco com Catarina para aprender a escolher o aguapé a ser coletado. “Não se arranca com faca os talos da planta para não matá-la, e se deve escolher os mais compridos”, ensina dona Catarina.

 

Na sequência, a fibra foi exposta ao sol para secar. Os alunos aprenderam também a produzir a trama que origina o trançado, que pode chegar a centenas de metros, até tomar forma de objetos utilitários e decorativos.

 

Ao fim do curso, as alunas participaram de uma exposição com o material produzido. “A ideia é formar uma cadeia produtiva e comercializar em vários pontos turísticos do Pantanal”, revela Catarina.

 

O grupo contou com jovens mães que, apesar da cheia do Rio Paraguai que só permite o deslocamento por embarcações, não mediram esforços em irem até a escola polo da comunidade, inclusive com crianças de colo, para aprenderem a confeccionar o artesanato de matéria-prima abundante no Pantanal para comercializar aos turistas que praticam o turismo de pesca na localidade.

 

Viviane Lino Nascimento, de 24 anos, se destacou no curso por conta da habilidade e criatividade, “foi muito fácil aprender a fazer o trançado com o aguapé. Apesar de viver aqui há muitos anos, não imaginava que dava pra fazer artesanato com a planta. Foi muito gratificante o curso. E não tem desculpas pra não fazer: com a cheia do rio, é só pegar o aguapé debaixo de nossas casas”.

 

Catarina Guató terminou o projeto satisfeita com mais esse curso. “Em maio fizemos o curso na comunidade do Porto da Manga e agora em Porto Esperança. Ensinei tudo o que sei e percebi que os dois grupos ficaram muito interessados em dar continuidade na produção do artesanato. Tenho certeza que em breve teremos núcleos de artesanato em aguapé nas duas localidades e essas pessoas vão poder repassar o conhecimento às outras, formando assim uma cadeia produtiva do artesanato em aguapé”.

 

O aguapé é uma planta aquática abundante do Pantanal. Seus emaranhados formam os chamados “camalotes”, que flutuam nas águas servindo de abrigo e alimento para variadas espécies.

 

Porto Esperança

 

É um lugarejo histórico às margens do Rio Paraguai, com acesso apenas por barcos. Seus moradores trabalham no turismo de pesca, atuando na coleta e comércio de iscas vivas, assim como piloteiros, guias de pesca e pescadores profissionais.

 

O distrito tem relevância histórica, pois de 1914 a 1952 era a última estação do trem de passageiros e cargas da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

 

No período, para se chegar a Corumbá, era necessário desembarcar do trem ali e tomar embarcações a vapor para se chegar à Cidade Branca. Com a desativação do trem de passageiros em 1992, o distrito teve brusca queda em sua economia, “parando no tempo”.

 

Atualmente, além do turismo de pesca, é importante entreposto entre os modais ferroviário e hidroviário no transporte de minérios.

 

Catarina Guató

 

Catarina nasceu e foi criada na Ilha Ínsua, terra indígena Guató, na fronteira entre Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bolívia, em pleno Pantanal. Já adulta mudou-se para a cidade de Corumbá onde, por indicação da amiga Josefina (em memória), deu sequência à arte que estava sendo gradativamente apagada da memória cultural brasileira.

 

“Desde quando Josefina partiu, em 2013, percebi a necessidade de ensinar aos mais jovens e aos demais interessados a produzir o nosso artesanato típico do Pantanal, que é 100% sustentável”, revela Catarina.