Fé em Nossa Senhora do Carmo mantém festividade em pleno Pantanal

As festividades de louvor a Nossa Senhora do Carmo, na região de Forte Coimbra, mais um ano contou com o apoio da Prefeitura Municipal de Corumbá, por meio da Fundação de Cultura, que proporcionou decoração, atrações musicais e culturais para abrilhantar está que é uma festa tradicional do município pantaneiro por diversos elementos que dão a ela uma singularidade que atrai muitos devotos e visitantes na pacata vila que mescla população civil e militar em pleno Pantanal. As comemorações começaram no dia 12 e culminaram nesta quarta-feira, 16 de julho.

 

O local histórico e rodeado pela natureza é um daqueles pedaços de chão onde o tempo parece andar mais devagar, onde as pessoas se conhecem por apelidos e através de toda a linhagem de ascendentes, onde as ruas de areia levam a poucos comércios e quase nenhuma opção de lazer, porém ocupando espaço importante no centro está a capela que guarda a imagem da santa cultuada há séculos desde que se atribuiu a ela a trégua em um dos episódios mais notórios da Guerra do Paraguai.

 

A História conta que o ditador paraguaio Solano Lopez queria conquistar uma saída para o mar e para isso objetivou conseguir terras em três países: Brasil, Argentina e Uruguai. O antigo Estado de Mato Grosso estava nesse caminho e por isso sofreu investiduras das forças paraguaias. No dia 28 de dezembro de 1864, tropa paraguaia com 3,2 mil homens, 41 canhões, 11 navios e farta munição cercou o forte. Os brasileiros (149 homens) resistiram até o segundo dia, quando um soldado exibiu a imagem da santa a pedido da esposa do comandante do Forte, Ludovina Portocarrero, e os inimigos suspenderam o fogo, permitindo a fuga dos sobreviventes.

 

A mesma imagem, trazida pelo construtor e depois comandante do forte, Ricardo Franco, é venerada desde então, como a “Rainha da Paz”. Muitas são as graças atribuídas à santa que também se acredita que confira poderes milagrosos às águas do interior da gruta Ricardo Franco, onde uma estalagmite é observada como a figura da santa. Apesar de a Ciência considerar as águas cristalinas como contaminadas pelas fezes dos morcegos que nela habitam, a população crê que resida poderes milagrosos no líquido.

 

Devotos


A costureira Marina de Arruda Ferreira participa dos festejo a Nossa Senhora há quase 40 anos e é uma das mais fervorosas devotas. Ela acompanha ativamente toda preparação e os rituais religiosos. Foi uma das primeiras pessoas a entrar na capela ao romper do dia 16, quando, após as queima de fogos à meia-noite, anunciou-se a chegada do Dia de Nossa Senhora do Carmo.

 

“Filha de Coimbra”, como se orgulha em dizer, a moradora Edir confirma a fé na santa a cada ano participando de todos os rituais. Proprietária de um bar na localidade, ela é bastante receptiva com os visitantes que chegam para os festejos e observou.

 

“Nossa Coimbra nunca esteve tão enfeitada, tão bonita como esse ano com o que preparou a Fundação de Cultura de Corumbá. Isso ajuda a dar um clima mais festivo, pois é essa a única época do ano que temos algo diferente. É festa, mas também é muita fé e respeito por tudo o que a santa nos concede de benções ano após ano”, observou.

 

Angelúcio Melgarejo, descendente de Raimundo da Costa Leite, músico do Exército que por anos guardou a imagem milagrosa em sua casa, após os episódios históricos mostra orgulho em continuar com aquilo que acredita ser a missão da família: preservar a história de fé de Nossa Senhora do Carmo. Como a comunidade não tem um padre, é ele o responsável pelas celebrações católicas durante todo o ano, com exceção da data festiva, quando o bispo diocesano preside os rituais.

 

“A gente gosta de receber as pessoas, principalmente aquelas que compartilham da mesma crença que a nossa, que tem profundo respeito a nossa Mãe protetora. Para mim, é uma honra ser o guardião de toda essa história”, explica o morador que participou dos rituais apoiando o bispo Dom Martinez que observou.

 

“Como a guerra é triste, perigosa e por isso deve ser evitada a todo custo. Que Nossa Senhora continue protegendo e defendendo à população e a todos nossos militares das três Forças Armadas. Que a atividade de vocês seja sempre a de levar a paz, preservar a vida, afinal Nossa Senhora do Carmo não é a Rainha da Morte, mas sim a Rainha da Paz”.

 

Dia de festa e fé


O dia 16 começou com a alvorada festiva e a Banda de Música Manoel Florêncio que anunciou os festejos por toda vila. Na praça, em frente à capela, uma farto café da manhã aguardava os devotos e convidados para que se iniciasse, então, a procissão terrestre com destino ao Forte Coimbra, onde a imagem foi conduzida e recebida por militares em trajes históricos. Do alto do Forte, construído em 1775 e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a missa foi conduzida pelo bispo diocesano e o gesto de levantar a imagem ao alto assim como aconteceu durante a Guerra do Paraguai é repetido.

 

Após a solenidade religiosa, a imagem é conduzida para a procissão fluvial que segue com a reza do terço. Novamente em terra, o andor é levado para a praça e seguem homenagens para pessoas da comunidade e autoridades militares até ser dada a autorização para o início do churrasco comunitário que, este ano, teve cinco rezes preparadas para o abatimento.

 

Logo após o almoço, o baile recomeça e segue até à última noite de festejos organizados pelo comando da 3ª Companhia de Fronteira Porto Carrero e comunidade civil local em parceria com a Prefeitura de Corumbá, por meio da Fundação de Cultura, contando ainda com o apoio da Marinha do Brasil.

 

“Sabemos que a festa não é somente para comunidade de Coimbra, mas para o município de Corumbá e muita gente que retorna aqui neste período para pagar promessas. Há algo místico, diferente aqui, sim, é um fato histórico que deve ser, cada vez mais conhecido e valorizado por todos”, comentou a diretora-presidente da Fundação de Cultura de Corumbá, Marica Rolon, que esteve presente as comemorações.