Corumbá inicia debate sobre Comida de Rua entre Poder Público e empresários

O “Joel do Côco” possui uma barraca na esquina da Frei Mariano com a Dom Aquino há pelo menos 18 anos e um sonho: reviver os bons e velhos tempos de sua saudosa kombi 86, onde vendia em média 70 côcos por dia, além de drinques, salgados, refrigerantes e cachorros-quentes. Balcão lateral, prateleiras adaptadas, luzes de neon, freezer projetado, alto-falante e som estéreo, foram dez anos de sucesso pelas ruas de Corumbá a bordo da “Disk-Côco”, como ficou batizada a estilosa kombi do Joel, hoje enferrujada e parada.

 

Antes de ser entrevistado por esta reportagem, o barraqueiro não tinha conhecimento de que existe um modelo de negócios – já popular em algumas capitais do mundo e agora chegando com força total no Brasil – que pode aproximá-lo da realização do seu antigo sonho.

 

É o Food Truck, sistema que consiste em um veículo estacionado nas ruas com o intuito de comercializar produtos alimentícios. Por mais familiar que possa parecer à primeira vista – uma vez que no Brasil já existem milhares de empreendedores adeptos aos veículos e barracas de rua – esse ‘novo’ movimento está um passo à frente e traz uma proposta diferenciada, de entregar produtos com uma pegada gourmet e alto valor agregado com uma higiene legal e um preço acessível.

 

Mais conhecido no Brasil por “Comida de Rua”, o Food Truck está se mostrando tão promissor que até já virou Lei na maior capital do País. Promulgada no final do ano passado pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (Lei Municipal 15.947/2013), passa não só a regulamentar como será feita essa venda nas ruas como também abre espaço para negócios como os food trucks, concessão de licenças e outros benefícios. A regulamentação tem o propósito de assegurar mais tranquilidade a quem trabalha com o comércio de comida de rua, minimizando os riscos desses empreendedores de ter seus equipamentos apreendidos a qualquer momento e, ao mesmo tempo, garantir os requisitos necessários para o atendimento das boas práticas de manipulação dos alimentos.

 

Mas o que isso tudo tem a ver com o sonho do Joel do Côco? Uma vez regulamentada e legalizada, essa atividade passa a atrair serviços de empresas de consultoria e linhas de crédito específicas e a juros baixos para os empreendedores de comida de rua. Recursos suficientes, por exemplo, para a reforma da velha Kombi 86. Ou a aquisição de uma nova em folha. “Eu pegaria um empréstimo para capital de giro e comprar uma Kombi novinha. Já sei até o veículo que eu quero e como fazer a adaptação”, diz ele, que lamenta não conseguir vender mais do que 15 águas de côco por dia e luta para sustentar seus quatro filhos com a lida nas ruas da Cidade Branca.

 

Ainda na Frei Mariano, um pouco mais abaixo, o empresário Daniel Almaraz Guerrero vende uma média diária de 350 a 400 sanduíches em seu trailer de 7 metros de comprimento. Realidade bem diferente em relação ao vizinho quando o assunto é faturamento, mas algumas semelhanças quando a pergunta gira em torno dos sonhos e ambições de crescimento e expansão do negócio. “Tenho vários projetos e orçamentos armazenados em meu computador e até já visitei algumas fábricas de trailer em São Paulo. Sei exatamente como eu quero esse trailer e posso adiantar que seria algo de primeira qualidade”, projeta ele, que há 22 anos prepara hambúrgueres na esquina da Frei Mariano com a Treze de Junho. “No dia que eu tiver acesso a uma linha de crédito, vou viabilizar esse sonho. Se a formalização do negócio de comida de rua for o caminho para isso, estou aberto”, acrescenta.

 

Oportunidades

 

Periodicamente o Sebrae, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, analisa as necessidades apontadas por meio da identificação dos eixos de desenvolvimento em Corumbá. Para isso, são realizadas entrevistas e pesquisas e listados os ramos de negócios que apresentam potencial no município. Segundo o Mapa de Oportunidades, como é chamado o documento, há quatro mercados promissores em Corumbá para se investir, e que podem, inclusive, ser explorados pelos empreendedores de comida de rua: fast-food; frango e carne assada na brasa; lanchonete; e comida típica.

 

De acordo com o secretário de Indústria e Comércio, Pedro Paulo Marinho de Barros, a regulamentação do segmento de comida de rua em Corumbá segue uma diretriz municipal de profissionalizar e fortalecer o comércio local. “Há um baixo índice de formalização do setor de barracas de rua porque infelizmente nem todos ainda entendem a regularização como um benefício para o próprio empreendedor, que é o que tem sido observado no comércio como um todo em Corumbá, nos micro empreendedores individuais (MEIs) etc”, explica. “Ao formalizar e ter um CNPJ, o empresário de comida de rua terá máquina de cartão de crédito e débito, acesso a linhas de crédito, aposentadoria, seguro desemprego, auxílio-maternidade e outras vantagens”, acrescenta.

 

Higiene

 

Quando se fala em comida de rua, um dos pontos mais discutidos e controversos é a questão da assepsia, acondicionamento e manejo dos alimentos. Muitas pessoas, aliás, deixam de consumir produtos alimentícios em trailers, barracas e carrinhos de rua por conta disso.

 

De acordo com o coordenador de Vigilância Sanitária, Luiz Arruda Mavignier Neto, o comércio de rua ainda peca muito na questão da higiene e não oferece a seus clientes sequer um álcool-gel para a limpeza das mãos. “Uma lei específica para o segmento de comida de rua, de preferência redigida por todas as partes envolvidas, alinharia e fortaleceria de uma vez por todas as regras e procedimentos de higiene e vigilância sanitária a serem observados nesse tipo de comércio, que inspira uma série de cuidados”, diz.

 

Boas experiências

 

Em São Paulo, a regulamentação do segmento de food truck ou comida de rua tem o apoio inclusive dos donos de restaurante, que ao invés de ver o movimento das ruas como uma concorrência em potencial, preferiram enxergar no setor uma oportunidade de negócio gastronômico. Chefs renomados, paralelamente às suas atividades em restaurantes consagrados, foram para as ruas e inauguraram movimentos de “food truck”. Entre os mais conhecidos estão o Mercado, Feirinha Gastronômica e o Chefs na Rua, que reúnem chefs e cozinheiros amadores para venderem seus pratos ao ar livre, o que acabou dando o impulso que faltava para reforçar o lobby pró regulamentação. Amantes da gastronomia se mobilizaram, circulando abaixo-assinados e petições online. Nesta onda pró-calçada, eventos gastronômicos ganharam versões em cidades como Recife, Florianópolis, Rio e Manaus.

 

Do popular churrasquinho grego ou hot-dog com pegada gourmet a pratos nordestinos, sushi, tacos, ceviches, tudo pode ser servido na rua, sem abrir mão da qualidade, da higiene e do preço acessível. Essa, aliás, tem sido a principal bandeira defendida pelo chef Checho Gonzales, idealizador do projeto Mercado. “Sempre tive um interesse particular pelas ruas. Luto pela democratização da alta gastronomia, tradicionalmente restrita aos públicos mais privilegiados e abastados”, diz o consagrado chef boliviano, que há 40 anos mora em São Paulo e apostou alto no sonho, fechando as portas de seu restaurante 3 anos atrás para se dedicar exclusivamente às ruas.

 

Ele foi um dos vários chefs renomados que marcaram presença no Festival Gastronômico Sabores das Americas (Fegasa), evento promovido no último final de semana pela Prefeitura de Corumbá por meio da Fundação de Turismo do Pantanal e cujo tema foi “Comida de Rua é Legal”. “Notei que o corumbaense gosta de programas ao ar livre, adora uma calçada, por isso a comida de rua tem tudo para ‘pegar’ aqui”, analisou.

 

A diretora-presidente da FundTur Pantanal, Hélènemarie Dias Fernandes, enxerga o segmento também como uma oportunidade de desenvolvimento para a cadeia turística do município. “O corumbaense gosta de gastronomia, é um culinarista em cada casa! Além disso, Corumbá tem singularidades históricas e culturais e está se apropriando da gastronomia sulamericana. No contexto turístico, a regularização e profissionalização do segmento de comida de rua ampliaria nossa oferta de alimentação fora do lar e levaria desenvolvimento a mais gente”, diz.

 

A diretora lembra ainda que, em uma cidade com alta especulação imobiliária como Corumbá a comida de rua é, antes de tudo, uma saída inteligente e vai tirar o movimento das calçadas da invisibilidade. “Escapo do aluguel e vou aonde o meu público está, democratizando a gastronomia com criatividade, charme, qualidade e bom preço, além de limpeza e higiene”, acrescenta.

 

Ela reconhece que há uma série de fatores que precisam ser discutidos antes de viabilizar uma regulamentação sobre o setor, como onde ficariam os trailers e barracas de rua fixas? Haveria um espaço exclusivo para esse segmento na cidade? Haveria uma flexibilização na política de impostos e concessão de licenças? E as regras de vigilância sanitária? Teria algum benefício para os empreendedores que apostarem na oferta de pratos típicos pantaneiros e sulamericanos, com um viés cultural? O município pleitearia, junto ao Sebrae e a instituições financeiras, consultorias permanentes e linhas de crédito específicas para o desenvolvimento do setor? Como se daria essa parceria? Para Hélènemarie, tudo isso e muito mais está em pauta e falta agora convocar todos os atores e partes envolvidas para uma conversa aberta e franca. “Cabe ao Poder Público regular para gerar desenvolvimento econômico e cidadania, mas a construção disso tudo tem de se dar de maneira coletiva e democrática. Aja local e pense global, esse é o lema”, finaliza.