Apesar das adversidades, ribeirinhos nem cogitam abandonar o Pantanal

A vida dos ribeirinhos no Pantanal sul-mato-grossense é cercada de provações. Na região da Boca do Paraguai Mirim, por exemplo, o cotidiano é todo pautado pelo Rio Paraguai. É dele que a maioria absoluta das famílias tira seu sustento, seja da pesca ou da coleta de iscas vivas. Até a pecuária e a agricultura dependem diretamente do rio.

 

Na época da cheia, como agora, nenhuma das duas atividades avança, já que as águas ocupam praticamente todo o campo. Só os aterros (levantados há décadas) e alguns poucos locais mais altos conseguem escapar parcialmente da inundação. “É assim sempre”, garante Edemilson Pereira Nascimento, de 36 anos.

 

“Às vezes enche mais, como nesse ano. Ai a água vai com tudo pra dentro de casa, como tá agora”, continuou o ribeirinho, nascido e criado às margens do Paraguai. Apesar da adversidade, ele nem cogita deixar o Porto 15 de Março, onde mora com a esposa Rosangela Arruda e mais quatro filhos.

 

“A gente vai levando como dá. E tem esse povo da Prefeitura que acaba ajudando muito”, disse. Edemilson se refere à equipe do Povo das Águas, programa social mantido pela Prefeitura de Corumbá e voltado especificamente para a população ribeirinha. Durante todo o ano um grupo de médicos, dentistas, vacinadores, assistentes sociais, professores, agentes de saúde e profissionais de outras especialidades visita todas as regiões do Pantanal corumbaense.

 

No último fim de semana, uma ação emergencial socorreu os moradores do Paraguai Mirim. Antes, a equipe já tinha levado o trabalho social para a Barra do São Lourenço, outra localidade bastante castigada pela cheia. As duas viagens tiveram o apoio fundamental do 6º Distrito Naval, que disponibilizou o navio de guerra Piraim e sua tripulação de 23 homens para o atendimento dos ribeirinhos.

 

Na última viagem, além de muitas casas embaixo d’água, os funcionários da Prefeitura e os militares da Marinha também encontraram histórias emocionantes, como a da jovem Helena. Com apenas 13 anos, ele trouxe sua primeira filha ao mundo sem ajuda de ninguém. Ela encarou todo o trabalho de parto sozinha, numa pequena casa onde não existe luz elétrica e nem água encanada.

 

O bebê, de apenas uma semana, passa bem. Ele foi examinado pelo médico e a enfermeira do Programa Social e na próxima ação deve receber as primeiras vacinas.

 

Aos 39 anos, Juliana Rosa também teve seu sétimo filho no meio do Pantanal. A pequena Olga Maria, com 22 dias de idade, é outra que esbanja saúde. “Todos meus filhos nasceram aqui, com ajuda da minha comadre Fátima”, relatou a pescadora.

 

O principal problema de saúde detectado na região da Boca do Paraguai Mirim foram as micoses, principalmente nos pés, uma conseqüência natural para o longo período que passam mergulhados dentro da água. Diferentes tipos de medicamentos foram distribuídos para a população ribeirinha, que também foi medicada contra verminose, outra doença diretamente ligada à cheia.

 

A coceira no pé acabou pegando o pequeno Danilo de Arruda Alves, 5 anos, que vive na Baía Vermelha com os irmãos e os pais. No último sábado, 17 de maio, todos foram até o navio Piraim para pegar sua cesta básica, o kit com legumes e verduras, lona e remédios. Tímido, Danilo foi, aos poucos, mostrando o que já aprendeu na Extensão Paraguai Mirim da Escola Municipal Pólo Porto Esperança. Mais a vontade, ele revelou o que pretende ser quando crescer. “Quero ser pegador de pintado igual meu pai”, afirmou sem a menor dúvida.

 

Bem mais experiente, Onésimo Toledo ostenta a força de quem toca sozinho uma pequena fazenda localizada na Baia do Bonfim. “Estou aqui há quase 30 anos, mas bem antes disso já estava no Sucuri (outra região localizada próxima ao Paraguai Mirim)”, contou.

 

Aos 70 anos, ele e a esposa Jacyra Francisca Toledo, 69, quase não vêm mais à cidade. “A última vez foi na eleição. E neste ano quero ir de novo pra votar, faço questão”, continuou o alegre senhor. Enquanto a equipe médica media pressão e separava os remédios dele e da esposa, Onésimo contou muito dos causos da região, como a lida constante com as onças.

 

“Nessa época de cheia a gente escuta ela urrando aqui perto. Ai os cachorros latem e tentam acuá-la. O jeito é soltar foguete naquela direção pra ela ir embora. Ela assusta com o barulho e some por um tempo”, relatou.

 

Um dos cães da casa carrega no pescoço, as marcas do ataque do felino. “Aqui isso é normal”, afirmou o pantaneiro, que nem pensa em deixar o local. “Já tive várias propostas pra vender, mas enquanto tiver força, fico por aqui”, sentimento compartilhado por grande parte dos ribeirinhos.