Revitalização descobre desenhos quase apagados pelo tempo no Galileu

Uma tarefa impossível para quem não tem olhar e conhecimento técnico apurados. Quase apagadas pelo tempo e escondidas por várias camadas de tinta ao longo de décadas de ocupação, as obras de artes escondidas voltam a ganhar destaque com o trabalho do artista plástico colombiano Santiago Plata.

 

A recuperação de desenhos decorativos do Hotel Galileu integra a fase de finalização de recuperação do prédio histórico. A construção localizada na área central da cidade teve as obras retomadas em abril deste ano, depois que o prefeito de Corumbá, Paulo Duarte, demandou a conclusão com recursos da própria Prefeitura Municipal. Os trabalhos haviam começado anos atrás com verbas federais do programa Monumenta, porém foram paralisadas.

 

Em fase final de revitalização, a construção está ganhando atenção especial do artista plástico colombiano Santiago Plata que, depois da prospecção pictórica – identificação das camadas de tinta – está recuperando em folhas transparentes de PVC todos os traços de trechos das pinturas que misturam motivos florais e geométricos do movimento art déco.

 

“É um trabalho quase arqueológico até encontrar melhores fragmentos. É preciso entender a lógica, a estética e a história da arte para nos auxiliar, além de elementos físicos como a lupa. O resgate iconográfico se dá com a colocação de um filme transparente de PVC sobre a parede e com uma caneta especial vamos continuando tentado resgatar os traços. Depois, passamos para outro suporte mais grosso que pode ser cortado e com isso replicar o desenho numa espécie de estêncil”, disse o restaurador ao resumir as etapas de seu trabalho.

 

Santiago está trabalhando em recortes nas paredes de vários cômodos da construção, já que o conjunto completo dos desenhos não pode ser encontrado. Esses recortes terão, além do apelo histórico, uma função didática, segundo explica a diretora-presidente da Fundação de Desenvolvimento Urbano e do Patrimônio Histórico de Corumbá (FUHPAN) e primeira-dama, Maria Clara Scardini.

 

“A proposta é chamar a atenção com esses trechos que chamamos de ‘janelas do tempo’. Neles deixaremos uma parte sem a recuperação para contrastar com a recuperada. Assim, o visitante verá uma parede lisa em contraponto a esses recortes”, disse ao comentar também que, nesta fase final de revitalização do prédio, estão incluídos os trabalhos de acabamento, sendo que o piso já está concluído. Além da pintura, haverá a instalação da iluminação técnica e de refrigeração do prédio.

 

Conforme análise do artista plástico e restaurador, Santiago Plata, para se recuperar um trecho de desenhos com dimensões de 80×50 centímetros é gasto, em média, cerca de 5 dias. É um trabalho que exige, além da habilidade e conhecimento, calma e paciência. Para se ter um exemplo, Santiago observou preliminarmente todos os trechos e percebeu que alguns motivos se repetem em cômodos diferentes, assim numa espécie de quebra-cabeças, ele encaixa pequenos recortes mais conservados de uma sala em outra e vai completando o desenho maior.

 

Depois da conclusão da reforma, o Hotel Galileu sediará a Fundação de Desenvolvimento Urbano e do Patrimônio Histórico de Corumbá (FUHPAN), além do Centro de Apoio ao Turista, justamente por estar numa localização estratégica dentro do centro histórico, defronte à Ladeira José Bonifácio, um dos principais acessos ao Porto de Corumbá, região onde está edificado o complexo arquitetônico do Casario do Porto.

 

O Hotel Galileu tem uma área construída de aproximadamente 1 mil metros quadrados, incluindo o anexo situado na Rua Frei Mariano, que também foi um hotel (Internacional) e será restaurado pelo Município, com recursos do PAC das Cidades Históricas. Seus registros de hóspedes incluem nomes ilustres como os ex-presidentes Getulio Vargas e Franklin Roosevelt (EUA).

 

Construído em 1907 pelo arquiteto italiano Fernando Mármore, em estilo eclético, variando entre o neoclássico o art-noveau, o prédio foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional e integra o conjunto arquitetônico localizado na General Rondon, com vista privilegiada para o rio Paraguai e o Pantanal. Foi de uma janela do Galileu que o sanfoneiro Mário Zan compôs o sucesso nacional “Chalana”.