Extensão Santa Aurélia, em São Domingos, será reformada pela prefeitura

“Em primeiro lugar, quero homenagear o nosso querido prefeito Paulo Duarte por estar sendo pela primeira vez o primeiro prefeito que a gente conhece pessoalmente”. Para a aluna Marciele, autora da singela mensagem, o último sábado, 14, foi um dia histórico, e não só para ela, mas para todos seus colegas da Escola Municipal Rural Pólo Porto Esperança – Extensão Santa Aurélia.

 

Foi o dia em que conheceram de perto o prefeito da cidade deles, fato até então inédito na breve história dessas crianças e de todos os moradores da Colônia São Domingos. Por conta da sinuosidade do rio Taquari, a região (que em linha reta estaria a 75 quilômetros da zona urbana) fica a 117 quilômetros no percurso de barco (única forma de se chegar até ali, além do avião).  Do Porto São Domingos até a escola de Marciele, na Fazenda Santa Maria, a distância é de cerca de mais uma légua e meia, perto de 10 quilômetros, onde só se chega a cavalo ou trator, por conta do areião fofo de uma região que até um tempo atrás era repleta de corixos, baías, lagoas e alagados.

 

Enfim, o lugar é tão inacessível e distante da zona urbana que é comum se esquecer de que também faz parte de Corumbá. Isso é tão verdade que a expressão mais recorrente enquanto o prefeito cumprimentava as pessoas era “esquecidos” seguida por uma outra, acompanhada de um sorriso de gratidão e esperança: “obrigado, prefeito!”.

 

Ao lado do secretário de Governo, Hélio de Lima, o prefeito iniciou sua visita pela Extensão Santa Aurélia, ligada à Escola Municipal Rural Pólo Porto Esperança, e conversou com os 46 alunos de 1ª à 7ª séries, todos vestidos com o belo uniforme amarelo da Rede Municipal de Ensino. E se emocionou ao ouvir e receber de presente cartas e poemas feitos por alguns deles, como o “Aluno Pé no Chão”, de Adriano Eloi de Arruda, de 11 anos: “Vivo nesta terra pantaneira (…) levanto ao raiar o dia, meu cavalo vou pegar para ir à escola estudar. Vou galopando, passo matas e corixos, cerrados e campinas. Vou cortando caminho até na minha escola eu chegar. Solto meu cavalo no piquete para pastar. Meus professores e amigos já estão a me esperar. Venha você também conhecer o meu lugar, pois sou aluno pé no chão. Não tenho orgulho não, pois sou aluno pé no chão”.

 

A realidade de Adriano é semelhante à de todos os seus amigos, que acordam antes do Sol nascer e enfrentam uma maratona a barco, trator ou cavalo para chegar às 7 horas da mahã na escola. “E não faltam um só dia! Amam, adoram estar aqui diariamente aprendendo”, relata a professora Ana Regina, que leciona português, matemática, história, geografia e espanhol.

 

A Colônia São Domingos e região são uma prova incontestável de que o amor pela educação e pelos estudos é proporcional às dificuldades logísticas e financeiras e se expressa nos pequenos detalhes, como nos cadernos coloridos, as caligrafias bem caprichadas e o orgulho com que os alunos ostentam seus uniformes, impecavelmente limpos apesar das condições adversas. “Não é fácil governar um município imenso de 65 mil quilômetros quadrados de extensão territorial, mas aceitei o desafio e é esse brilho nos olhos dessas crianças que me motiva a levantar todo dia e enfrentar os problemas de frente, pegar barco, trator e cavalo e vir até aqui e dizer que elas não estão sozinhas, que estamos trabalhando e trabalharemos cada vez mais por elas”, disse o prefeito.

 

Segundo o chefe do Executivo, a primeira iniciativa que a administração irá tomar para melhorar a vida dessas crianças e adolescentes é a de reformar as instalações da Extensão Santa Aurélia, dotando-as de mais conforto, espaço e condições físicas para o bom aprendizado dos alunos. “Vamos incluir essa escola entre as nossas prioridades e quero voltar aqui para entregá-la pronta à comunidade já no ano que vem”, disse.

 

Outro problema relatado ao prefeito e sua equipe foi com relação à merendeira . “Os alimentos e suprimentos tem chegado periodicamente, mas detectamos um problema com a pessoa que prepara as refeições. Vamos contratar uma merendeira fixa, daqui da própria região, para garantir o lanche e o almoço dos alunos”, disse o prefeito. “Temos de ter um carinho especial por essa questão. Até pela situação sócio-econômica das famílias da região, para a maioria dessas crianças e adolescentes essa alimentação representa praticamente toda a refeição do dia”, acrescentou o prefeito.

 

Juntamente com o secretário de Produção Rural, Pedro Lacerda, o prefeito foi até o poço artesiano da escola e conferiu de perto outra importante carência, que é a de água potável na região. “Estamos buscando soluções e parcerias para viabilizar o abastecimento dessa região. Minha equipe já está trabalhando para isso, em caráter de urgência. É inadmissível o Pantanal, um lugar repleto de rios, sofrer com a falta de água potável para a população”.

 

Depois da visita às instalações da Extensão Santa Aurélia, o prefeito se encaminhou à sede da Fazenda Santa Maria, onde conversou com todos mais de 200 moradores não só da Colônia São Domingos, como também do Cedro, Cedrinho, Corixão e Bracinho. Ali ele pode ouvir outra solicitação , que é a construção de uma estrada da Colônia até o Porto São Domingos, demanda que será prontamente encaminhada ao secretário da Seinfra, Luiz Mário Romão.

 

Na região de São Domingos e cercanias os ribeirinhos e pantaneiros vivem basicamente da pesca, pecuária e da agricultura de subsistência e sofrem muito com a seca que assola o Pantanal. É o caso do jovem peão Maciel Gomes, de 21 anos, que ficou esperançoso com a visita do prefeito. “Se ele veio até nós, que estávamos esquecidos há tanto tempo, é sinal que se preocupa com a gente e quer ajudar a resolver nossos problemas”, disse ele. Opinião compartilhada por Maria Domingues, de 39 anos, e mãe do pequeno Maílson, de 2 anos: “Moro há mais de 30 anos aqui e nunca vi prefeito nenhum! Agradeci a ele pois cumpriu o que falou na campanha e veio nos visitar e ver nossos filhos”, acrescentou.

 

O prefeito, que já visitou os assentamentos Taquaral e São Gabriel e as regiões ribeirinhas de Paraguai-Mirim e São Lourenço, continuará suas andanças pelas áreas mais remotas de Corumbá. No próximo mês, ele entregará as obras de reforma e ampliação da Extensão Nazaré, na Colônia do Cedro, com três salas de aula, alojamento e dormitório que ampliarão a capacidade de atendimento da escola de 35 para 60 crianças. No mesmo mês, irá na extensão Jatobazinho entregar a reforma e ampliação do estabelecimento. Ainda em outubro, estará na região São Lourenço  para inaugurar a sala interativa da escola extensão Paraguai-Mirim, que contará com 5 computadores conectados à Internet, além de biblioteca e brinquedoteca.

 

Desastre no Taquari

 

Ao final da missão, o prefeito sobrevoou a região do Taquari, juntamente com os secretários de Governo e de Produção Rural, e novamente verificou os prejuízos provocados pela cheia permanente do rio. “Só mesmo do alto dá para se ter uma real noção dos estragos causados pela pesca predatória e da ação indiscriminada do homem no Taquari”, disse ele, que já havia realizado a inspeção aérea em abril deste ano. A devastação, iniciada ainda na década de 1970, nas partes alta e média do curso do Taquari, em Coxim, já atingiu uma área correspondente a 20% do município de Corumbá e a cada dia que passa avança lenta, mas inexoravelmente, sobre a região pantaneira do Paiaguás e Nhecolândia.

 

A perda estimada de território produtivo em Corumbá já chega a mais de 1,5 milhão de hectares e põe em desespero pequenos e grandes produtores rurais. De acordo com levantamentos da Embrapa os prejuízos econômicos superam o valor de R$ 1,2 bilhão somente na pecuária, devido à retirada ou morte de cerca de 500 mil cabeças de gado. Em ICMS esse valor ultrapassa os R$ 50 milhões. A produção pesqueira, que na década de 70 era de 6oo mil toneladas/ano, hoje não chega a 10%, o que gira em torno de 35 a 60 toneladas/ano. 

 

O imenso deserto de água criado pela invasão das águas é mais assustador ainda. Na região chamada de “arrombados do Taquari”, localizada entre o Paiaguás e a Nhecolândia, já em Corumbá, o rio derrama suas águas pelo o que os moradores locais chamam de “bocas”, causadas pelo desbarrancamento das margens do rio, onde os barcos pesqueiros colocam suas redes para recolher os peixes que ficam presos nesses bolsões.

 

As margens ficam fragilizadas e a ação da correnteza se encarrega de derrubar o que sobra, levando areia para o leito do Taquari e inviabilizando a navegação, devido ao assoreamento. E assim vão se formando imensos veios que percorrem mais de 200 quilômetros, em campo aberto, até desaguarem pelas margens do Rio Paraguai, através de uma extensão de mais de 120 quilômetros. O pior trecho é onde está localizada a Boca do Coronal. Ali já não se consegue distinguir o curso verdadeiro do Taquari e pequenos “rios” se espalham pela planície pantaneira como se fossem veias expostas. 

 

As águas do Taquari invadem tudo, obrigando os produtores a abandonarem suas propriedades. Mais de mil pessoas já saíram dali. Os que ainda resistem vivem em ilhas, praticamente isolados. Embora este seja o período de cheias no Pantanal, a área que os arrombados atingiu fica permanentemente alagada, inviabilizando qualquer tipo de atividade econômica. “O ciclo de cheia e seca é normal aqui no Pantanal”, explica o secretário de Produção Rural, Pedro Lacerda, “só que agora toda essa área de 1,5 milhão de hectares não seca mais. Aqui não se produz nada. É um deserto de água. Nem peixe sobrevive aqui”, lamenta. 

 

Com a invasão do rio as famílias deixaram as colônias e foram para a cidade, onde recebem cestas básicas custeadas pela Prefeitura Municipal. “A administração pública não pode ficar omissa”, diz o prefeito Paulo Duarte, “Já entramos em contato com o Governo Federal, mas vamos reforçar novamente o pedido de sensibilização das autoridades a este desastre do Rio Taquari”, declara.