Após encontro, comunidade acredita na “retomada” de Porto Esperança

Mesmo aos 91 anos, dona Firmosina da Silva continua levando a vida sem se intimidar com desafios. Em 1927, quando tinha apenas 5 anos, ela e a família deixaram Dourados de carro de boi, passaram por várias cidades e exerceram inúmeras atividades. Três décadas depois, já “mulher feita”, Firmosina desembarcou no distrito de Porto Esperança, localidade distante 60 quilômetros da área urbana de Corumbá.

 

“Era agosto de 54. Eu estava no Porto da Manga e resolvi vir cá por causa do movimento. Trabalhei de cozinheira, passadeira e fui pescadora”, recorda a aposentada. Na memória intacta dela estão o trem de passageiros, o cartório, a agência dos Correios e o policiamento existente no próspero vilarejo. Foi nesse cenário que ela criou os seis filhos. Dois ainda moram com ela e também guardam essa época na lembrança.

 

“A gente acordava quatro horas da manhã para pescar. Minha mãe fritava o peixe e levava tudo na estação pra vender. Foi assim durante muitos anos”, reviveu Ivete, 64, filha mais nova da Dona Firmosina. Sebastião, 53, é o caçula entre os homens. Hoje ele vive em Campo Grande, mas aproveitou as férias no serviço para ver a mãe e o local onde cresceu. “Penso muito em voltar pra cá depois de aposentar”, confessou.

 

Mas com o passar do tempo, a construção da BR-262, a privatização da Noroeste do Brasil e a encerramento do trem de passageiros, o Porto Esperança foi ficando menos atrativo para as novas gerações. “Hoje a gente não tem quase nada, nem água na torneira, nem polícia e nem como ir pra Corumbá sem ser de barquinho pequeno”, lamentou Firmosina, que apesar disso tudo, nem cogita se mudar para qualquer outra parte do mundo.

 

“Só saio daqui pro Cemitério”, sentenciou. E ela acredita que a situação ali vai melhorar, sentimento reforçado nessa sexta-feira (13), quando o prefeito Paulo Duarte esteve no distrito e conversou longamente com a comunidade.

 

“Cada prefeito que entra faz uma promessa pra cá, mas depois ninguém nem vem mais aqui”, reclamou Maria Tereza Esteves, 86 anos de idade, dos quais 52 vividos em Porto Esperança. “Com você foi diferente. Não veio na campanha, mas apareceu logo no começo (da gestão). Melhor pra nós”, disse diretamente a Paulo, que visitou a casa onde ela mora, bem perto do rio Paraguai.

 

“Não tenho estudo, mas tenho experiência. O que nós precisamos aqui mesmo é a estrada e a escol”, afirmou Dona Tereza. A Prefeitura mantém uma extensão de ensino na localidade com todo o ensino fundamental. O ensino médio, entretanto, só existe na cidade. Moradora da vila desde 1983, Nilce mendes Vieira, 45, também reclamou da estrada, da falta de atendimento médico e da pouca atenção dada pela Vale à comunidade.

 

A mineradora tem um porto para embarque de minério na região. “Pedimos encarecidamente que olhem por Porto Esperança”, disse a pescadora. “Até ontem eu não acreditava que vocês viriam aqui. Só acreditei quando vi o prefeito na minha porta”, declarou Jorgina de Almeida, outra que vive ali há 30 anos. Ainda mais antigo na comunidade, Amélio da Costa Oliveira chegou ali em 1976.

 

“Isso aqui era uma coisa maravilhosa. Esse é um lugar histórico, não pode ficar esquecido”, disse Amélio, pai de seis filhos, todos criados ali. “Sou muito grato a esse lugar. Eu amo tudo isso aqui. Foi Deus quem mandou o prefeito e essas autoridades aqui para verem nossa realidade”, completou.