No Taquari, deserto aquático expulsa famílias e causa perda econômica

O prefeito Paulo Duarte percorreu, nesta quinta-feira (04), junto com o secretário de Produção Rural, Pedro Lacerda, o Presidente do Sindicato Rural de Corumbá, Luciano Leite e o Presidente da ong SOS Taquari, Daniel Marinho, a extensão do baixo Taquari, localizado na região pantaneira, para verificar os prejuízos provocados pela cheia permanente do rio.

 

Só mesmo do alto para se ter uma real noção dos estragos causados pela pesca predatória e da ação indiscriminada do homem no Taquari. A devastação, iniciada ainda na década de 1970, nas partes alta e média de seu curso, em Coxim, já atingiu uma área correspondente a 20% do município de Corumbá e a cada dia que passa avança lenta, mas inexoravelmente, sobre a região pantaneira do Paiaguás e Nhecolândia.

 

A perda estimada de território produtivo em Corumbá já chega a mais de 1,5 milhão de hectares e coloca em desespero pequenos e grandes produtores rurais. De acordo com levantamentos da Embrapa os prejuízos econômicos superam o valor de R$ 1,2 bilhão somente na pecuária, devido à retirada ou morte de cerca de 500 mil cabeças de gado. Em ICMS esse valor ultrapassa os R$ 50 milhões. A produção pesqueira, que na década de 70 era de 6oo mil toneladas/ano, hoje não chega a 10%, o que gira em torno de 35 a 60 toneladas/ano.

 

O imenso deserto de água criado pela invasão das águas é mais assustador ainda. Na região chamada de “arrombados do Taquari”, localizada entre o Paiaguás e a Nhecolândia, já em Corumbá, o rio derrama suas águas pelo o que os moradores locais chamam de “bocas”, causadas pelo desbarrancamento das margens do rio, onde os barcos pesqueiros colocam suas redes para recolher os peixes que ficam presos nesses bolsões.

 

As margens ficam fragilizadas e a ação da correnteza se encarrega de derrubar o que sobra, levando areia para o leito do Taquari e inviabilizando a navegação, devido ao assoreamento. E assim vão se formando imensos veios que percorrem mais de 200 quilômetros, em campo aberto, até desaguarem pelas margens do Rio Paraguai, através de uma extensão de mais de 120 quilômetros. O pior trecho é onde está localizada a Boca do Coronal. Ali já não se consegue distinguir o curso verdadeiro do Taquari e pequenos “rios” se espalham pela planície pantaneira como se fossem veias expostas.

 

As águas do Taquari invadem tudo, obrigando os produtores a abandonarem suas propriedades. Mais de mil pessoas já saíram dali. Os que ainda resistem vivem em ilhas, praticamente isolados. Embora este seja o período de cheias no Pantanal, a área que os arrombados atingiu fica permanentemente alagada, inviabilizando qualquer tipo de atividade econômica. “O ciclo de cheia e seca é normal aqui no Pantanal”, explica o secretário de Produção Rural, Pedro Lacerda, “só que agora toda essa área de 1,5 milhão de hectares não seca mais. Aqui não se produz nada. É um deserto de água. Nem peixe sobrevive aqui”, lamenta.

 

Lacerda explicou também que na região baixa do Taquari nas épocas de cheia, ainda nos anos 1970/80, as águas avançavam cerca de 89 quilômetros, porém ao término desse ciclo elas retornavam ao seu curso normal. Hoje, esse avanço chega a 105 quilômetros e em algumas regiões a situação é pior ainda, podendo alcançar 130 quilômetros além de suas margens e ali permanecendo.

 

O que hoje está coberto por uma lâmina de água era, há alguns anos, uma das regiões mais produtivas de Corumbá. Ali moravam e trabalhavam mais de 400 famílias de pequenos produtores rurais que abasteciam o mercado corumbaense com toda a sorte de produtos como mandioca, farinha, feijão, milho e banana.

 

Com a invasão do rio as famílias deixaram as colônias e foram para a cidade, onde recebem cestas básicas custeadas pela Prefeitura Municipal. “A administração pública não pode ficar omissa”, diz o prefeito Paulo Duarte, “vamos unir esforços para sensibilizar o Governo Federal sobre este desastre do Rio Taquari”, declara.