Até o final da vida, Padre Ernesto dizia que havia “muito por fazer”

Ícone da área social na região pantaneira, idealizador de grandes projetos como a Cidade Dom Bosco – que abriga a escola Dom Bosco –, o Projeto Criança e Adolescente Feliz (PCAF), centro profissionalizante, a área de assistência social, o Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER) e outros programas relevantes em atendimento à comunidade mais carente de Corumbá e Ladário, padre Ernesto Sassida dizia sempre que ainda não se sentia uma pessoa totalmente realizada. Ele sempre afirmava que ainda havia mais por fazer.

 

O “plano de Deus”, como ele mesmo dizia ser a sua tarefa, não estava cumprido. Agora, ele dizia que trabalhava para ajeitar a “máquina” e deixá-la em condições de continuar cumprindo tudo o que “Deus determinou”, oferecendo o apoio necessário aos mais necessitados e, portanto, contribuindo para a transformação de uma sociedade.

 

Sereno como sempre, de fala mansa, com gestos cativantes, padre Ernesto Sassida recebeu a equipe e fez um relato de toda a sua trajetória, iniciada aos 11 anos de idade, quando fora “arrancado” da família, na Eslovênia, para “servir a Deus”. Apesar da idade avançada, ele reforçava que ainda havia muito o que fazer.

 

“Deus poderia ter me chamado com 40, 50 anos. Está me chamando agora e me deu um prazo enorme para ser útil, para construir. Ele quer mais, o plano Dele é muito maior. Está me dando tempo para consolidar. Tenho que fazer o possível para não me esquivar, não me poupar nestes últimos anos. Estou trabalhando, não posso ficar ocioso. Sinto-me mal quando não tenho o que fazer, ou não posso fazer”, revelou em vida.

 

Padre Ernesto reconhecia que as dificuldades eram muitas, mas que o “plano de Deus” estava acima de qualquer coisa. Por isso mesmo, dedicava-se ao amadurecimento de todo o seu ideal, para deixar tudo encaminhado quando faltasse. Ele afirmava já estar “armando a estratégia” para sequência do trabalho iniciado em Corumbá, em 1950, quando chegou para ser educador no Colégio Salesiano de Santa Teresa e manteve os primeiros contatos com as famílias pobres do Município.

 

Para dar sequência ao seu trabalho, ele confiava nos amigos, pessoas que estavam sempre ao seu lado, dispostas a ajudar, contribuir, em benefício da pessoa mais carente, em especial das crianças. Para isso, o padre revelou na épovca que está fundando uma nova entidade, a União dos Ex-alunos, chamando todos aqueles que receberam educação direta dos salesianos, “que são forças vivas para investir a educação recebida em benefício dessas crianças”.

 

Nessa tarefa, ele contava também com o CENPER, o Clube dos Amigos do padre Ernesto Sassida, que são movimentos de extensão da Cidade Dom Bosco e “que poderão levar à frente, não só organizar, mas entrar em campo, trabalhar, além de encontrar auxiliares”, comentava, lembrando que, nessas horas, é preciso a união de todos. “Não adianta estar dentro de campo, jogando, e os demais na arquibancada apenas aplaudindo. Todos devem estar no campo de jogo, juntos, unidos”, pregava em vida.

 

Padre Ernesto dizia que, ultimamente, estava atarefado, trabalhando para deixar tudo em ordem para quando faltasse. Por isso, invocava apoio, dizia que “sente falta de auxiliares que tiram o corpo fora quando se trata de entrar em campo, de gastar um tempo, fazer uma ajuda material, humanitária, dar o pão de cada dia. Além da educação, tem que haver os modos de sobrevivência. Para formar uma sociedade é preciso muito mais. Tem que participar, topar com a realidade”.

 

Ele argumentava que a resposta negativa, por parte daquele que era procurado, “é um prejuízo a si mesmo” e que o corumbaense e o ladarense teriam que estar juntos, deixar de lado a “desmotivação”, palavra que o preocupava e que o fazia crer que “ter deixado a família, o coração, as forças, o amor em favor de Corumbá não valeu a pena”.

 

Por isso, ele ainda não se sentia com o dever cumprido. Queria ver a população agindo com o coração, estima, amizade e presença, de maneira eficiente. “Não ficar só na arquibancada, batendo palma para aquilo que estamos fazendo no campo. Tem que descer ao campo, mesmo não tempo capacidade de ajudar, tem que estar junto”, reforçava.

 

O padre não deixava de lamentar, também, a falta de compreensão de grande parte da população. Dizia que, “ajuda material é o fraco do corumbaense” e que ele precisou “procurar recursos em 14 cidades brasileiras, bem como no exterior, para investir aqui. Corumbaense tem que gostar mais do corumbaense, o ladarense do ladarense. É preciso abrir o coração para colaborar. Se não está contribuindo para a construção da sociedade, não pode dizer que é filho de Corumbá. A característica de um povo não está na parte física, mas em ver no outro um companheiro. Afinal, ninguém faz história por conta própria”, cobrava.