Servidor: O exercício diário de paciência e amor pelos pequenos

Especial Servidor Público

"Agradeço a Deus pelo privilégio de estar no programa, com o qual cumpro meu dever como profissional e como mãe, pois me sinto mãe de todos eles"

Havia quatro anos que João Pedro da Silva Pereira, 15 anos, morador do bairro Cristo Redentor, frequentava a escola e jamais conseguira sair da primeira série. Ainda pior, sequer conseguira aprender a ler e a escrever. Considerava-se sempre deixado de lado, para o canto, sem receber a atenção que julgava merecer dos professores e, por outro lado, era apontado como um dos mais rebeldes e ‘bagunceiros' da escola. "Agora eu consegui aprender, porque a professora nos dá atenção e isso é o que faz a diferença. Quando eu percebi, ‘puxa, a professora está prestando atenção em nós, agora sim eu vou para frente', fiquei confiante e aprendi mesmo", conta.

Ele foi um dos 21 alunos da Escola Municipal José de Souza Damy que terminaram o ano letivo 2010 do programa Se Liga – fruto de uma parceria entre a Prefeitura de Corumbá e o Instituto Ayrton Senna -, todos na mesma situação: há anos repetindo a primeira série. À frente da turma, a professora Maria da Graça Antunes Céspedes, 30 anos dedicados à alfabetização. Ela confessa não ter acreditado inicialmente que daria conta de tamanho desafio: alfabetizar crianças e adolescentes com sérios problemas de aprendizagem, comportamento e auto-estima, com famílias desestruturadas, pais alcoólatras, ou seja, sem qualquer apoio do lar.

"Logo percebi que as crianças começaram a se interessar pelo programa, que é diferenciado e alfabetiza de verdade, pois se apoia principalmente na atenção e no amor que o professor dedica diariamente ao aluno", explica a professora, enfatizando que o perfil do profissional que se propõe a fazer o trabalho deve ser de absoluto compromisso, responsabilidade e, acima de tudo, muita paciência e amor por cada uma das crianças. "Agradeço a Deus por ter me dado o discernimento de entrar no programa, com o qual estou tendo o privilégio de cumprir minhas obrigações como servidora publica, ser humano, profissional e mãe, pois me sinto mãe de todos eles, ao fechar o ano com 21 dos 23 aprovados", acrescenta.

As palavras ainda escassas de João Pedro sintetizam o novo rumo que agora tem a vida de cerca de 300 alunos que fizeram parte do Se Liga em 2010: "Agora só paro quando terminar os estudos. Aí vou ser militar e servir em Forte Coimbra. A professora me mostrou que eu sou capaz". Ela, no entanto, compartilha os resultados: "Essas vitórias não são só minhas, mas de todos os meus pequenos, e são a maior recompensa por uma vida pautada pelo amor e dedicação a eles".

"Agora só paro quando terminar os estudos. Aí vou ser militar e servir em Forte Coimbra. A professora me mostrou que eu sou capaz"

(Fatos narrados em dezembro de 2010)