Corumbá perde a guerreira Helô, ícone da cultura pantaneira

Ela não era uma artista plástica, uma poetisa, uma cantora, uma atriz, uma dançarina… Sua arte era fazer cultura, e a cultura corumbaense estava em primeiro lugar. Era uma ferrenha defensora das artes. A cultura estava no seu interior, no sangue. Supria todas as necessidades com sua garra, vontade de fazer tudo perfeito para agradar o público, a população que, nos últimos anos, principalmente neste século 21, vivenciou e degustou momentos culturais imperdíveis proporcionados por ela.

Se tinha carnaval cultural, lá estava ela na Frei Mariano e Avenida General Rondon, desfilando ao lado de outras pastoras, em uma ala criteriosamente preparada por ela. Aliás, foi ela a grande responsável pelo Carnaval Cultural de Corumbá, evento que marca o encerramento da melhor folia do interior brasileiro. Resgatou os antigos carnavais com os desfiles de Corso, Bloco de Frevo, Ala das Pastoras, Ala dos Marinheiros, Bloco das Bruxas e o Bloco dos Palhaços. Ela teve uma participação decisiva no retorno do carnaval romântico dos velhos tempos, com direito inclusive ao desfile dos cordões carnavalescos.

Queria mais. Em 2006 criou o Bloco Sandálias de Frei Mariano, a princípio formado por servidores municipais, mas que ganhou adesão da população de uma forma geral. Foi idealizado por ela como forma de satirizar uma 'praga' que Frei Mariano teria feito contra a cidade, por ter sido expulso após ser acusado de não pagar o relógio da igreja que acabara de construir, em 1887. A vingança foi rogar uma praga contra os moradores de Corumbá. Ela sempre dizia que a festa fazia "parte da nossa cultura, da nossa história, fatores evidenciados pelo nosso prefeito Ruiter Cunha, desde o início da sua administração". Dizia que o bloco foi criado "justamente para mostrar um pouco dessa lenda de Frei Mariano, que faz parte da cultura e da história da cidade. É uma maneira também de desmistificar esta lenda", comentava. O bloco sai sempre às quintas-feiras, abrindo o Carnaval Corumbaense. A letra da marcha que "chispa o azar" é de autoria dela.

As praças da cidade sempre foram preocupações dela. Trabalhou no sentido de torná-las mais familiar por meio de eventos que atraíssem a população, não só os adultos, mas também jovens, adolescentes e as crianças. Uma prova disso é a Noite da Seresta, um programa idealizado por ela, que se tornou uma tradição na Praça da Independência, além de proporcionar um espaço para revelação de novos talentos da cultura corumbaense.

E foi a Praça da Independência que se tornou palco do Jardim de Natal, o Jardim Caipira (dentro do Arraial do Banho de São João) e o Jardim da Primavera (uma alusão ao aniversário da cidade). Ela contribuiu de forma decisiva para o Banho de São João se tornar Patrimônio Cultural do Mato Grosso do Sul. Comandou a formatação do Plano Municipal da Cultura, da criação do Conselho Municipal da Cultura. Fomentou o artesanato local, os artistas dos mais diferentes segmentos, tudo isso preocupada em mostrar a força da cultura pantaneira e atender uma proposta defendida pelo prefeito Ruiter Cunha, a valorização do artista da terra.

Nesta quarta-feira (23) a cultura corumbaense perdeu um de seus ícones com o falecimento de Heloisa Helena da Costa Urt, diretora-presidente da Fundação de Cultura e Turismo do Pantanal de Corumbá. Helô, como era carinhosamente conhecida, foi braço direito do prefeito Ruiter Cunha desde a sua primeira gestão, sempre ocupando cargos importantes na área cultural. Antes mesmo, no governo de Zeca do PT, foi gestora da Casa de Cultura Luiz de Albuquerque (ILA), considerada sua segunda casa, onde seu corpo está sendo velado.

O falecimento de Helô foi profundamente lamentado pelo prefeito Ruiter. Ela sempre foi uma "guerreira na defesa das manifestações dos povos corumbaense e ladarense". Além do reconhecimento de sua militância cultural e política, o prefeito enfatizou a grande figura humana que foi "essa mulher ímpar, sempre generosa e solidária, elogiosa quando cabível, mas sem nunca deixar de manifestar suas críticas, quando necessárias", e que vinha desenvolvendo um "excelente trabalho à frente da Fundação de Cultura e Turismo do Pantanal".

Ruiter decretou luto oficial de três dias em Corumbá pelo seu falecimento. Além disso, outras homenagens estão sendo preparadas para o período, inclusive para o sepultamento, que ocorre nesta quinta-feira (24). No entender do prefeito, foi uma perda imensurável não apenas para o setor cultural, mas para toda a sociedade corumbaense/ladarense, já que ela dedicou a vida à luta pela cultura pantaneira, pela preservação e divulgação da história local, tornando-se uma referência estadual no assunto. "Devemos muito a ela o fato de Corumbá ter, atualmente, tanto destaque em Mato Grosso do Sul e até no Brasil em matéria de cultura. Ela é, sem dúvida, uma das grandes responsáveis por termos hoje, por exemplo, o maior carnaval do Centro-Oeste e a melhor festa de São João do Estado", disse.