Pequenos Heróis: O resgate da inocência na prática de boas ações

"Um dia eu jogava bola em frente de casa quando ela caiu no quintal da vizinha. Eu pulei a cerca para apanhá-la e vi que a vizinha estava passando mal. Saí correndo para pedir ajuda e, depois que foi socorrida, fiquei sabendo que ela teve um enfarte. Então passei a cuidar dela por um tempo e hoje ela está bem, morando no Porto da Manga com uma filha". A atitude que mistura simplicidade e notável senso de heroísmo foi contada por Vinícius da Silva Bogado, na época com 11 anos e estudante do 7º ano da Escola Municipal Clio Proença, em Corumbá, na solenidade que o escolheu como "Pequeno Herói 2008".

Como prêmio pela boa ação, ele recebeu das mãos do padre Ernesto Sassida um computador e a carteirinha que o identifica como "Pequeno Herói", juntamente com outras 19 crianças e adolescentes também premiados com aparelhos MP3, telefones celulares, rádios, bicicletas e vídeo games, além da carteirinha. É o que ocorre todos os anos desde os anos 1970, quando o fundador da Cidade Dom Bosco instituiu o projeto "A Procura de Pequenos Heróis". Como explica o padre, a iniciativa surgiu com o propósito de conscientizar crianças e adolescentes a discernir atos bons dos ruins, resgatar os valores no contexto da família, prepará-los e persuadi-los para a prática de uma boa ação.

"Para incentivar as crianças de Corumbá e Ladário a praticar e a divulgar boas ações, vamos todos os anos em busca delas nas duas cidades, visitando todas as escolas, entidades, associações de bairros e igrejas. Onde tem uma, vamos lá convidá-la a participar", afirma a professora Lindivalda Gonçalves dos Santos, coordenadora do projeto, que é realizado pelo Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER). Ela explica que, quando são abertas as inscrições, sempre em torno de quatro meses antes da data da premiação, as crianças são incentivadas tanto a relatar suas histórias de boas ações praticadas ao longo do ano, quando a praticar novas para se inscrever.

"É um projeto interessante porque as crianças fazem questão de contar coisinhas que, muitas vezes, parecem sem importância. Mas é exatamente isso o que queremos, que elas criem o hábito de praticar boas ações, por menores que sejam", afirma a professora, lembrando que algumas chegam a se inscrever relatando que deram o lugar no ônibus a uma senhora gestante, por exemplo. "Isso pode parecer tão singelo, mas para nós é muito importante, pois o objetivo é resgatar a prática da gentileza, da boa educação, o vínculo e o carinho entre pais e filhos e tantos exemplos que vão se perdendo com o tempo. E é muito satisfatório ver a alegria deles ao contar o que fizeram", acrescenta.

Ainda conforme a coordenadora da iniciativa, todos os anos cerca de 3 mil crianças e adolescentes se inscrevem e relatam suas histórias de heroísmo e boas ações, sendo que, desde 2009, o projeto se desdobrou e Ladário passou a ter sua própria versão. Desses inscritos, uma comissão técnica, formada por servidores públicos da Secretaria Executiva de Educação de Corumbá – parceira do CENPER na realização do projeto -, faz a primeira análise e seleciona 20 destaques, com notas entre 6 e 10. Os 20 relatos escolhidos são enviados a uma comissão de honra, formada pelo prefeito e pelas principais autoridades políticas, militares, eclesiásticas e judiciais da cidade.

A comissão de honra elege os 10 vencedores de cada edição, que são premiados em solenidade no dia 6 de dezembro, o Dia Municipal do Pequeno Herói. Para escolher 20 e depois 10 vencedores, as duas comissões consideram um ato isolado ou continuado que apresente clara conotação de desprendimento, desinteresse, sacrifício e esforço incomum em benefício de outros ou como exemplo a ser imitado por outras crianças. A ação pode ser praticada em família, na escola, na rua, na hora do lazer, na viagem e em qualquer outro local e momento em que a criança tenha a oportunidade de fazer uma boa ação. "Premiamos 10 crianças, mas também damos uma lembrancinha e uma carteirinha a todas que participam, sem esquecer ninguém", afirma Lindivalda.

Para a professora Lígia Maria Baruki de Melo, 55 anos, presidente do CENPER, o "Pequeno Herói" valoriza sentimentos nobres do ser humano, como a compaixão, a solidariedade e o amor ao próximo. "Por isso, é preciso dar cada vez mais apoio às ações iniciadas pelo padre Ernesto, que visam fortalecer os valores éticos e morais das crianças e jovens corumbaenses", afirma a filha do médico e político Salomão Baruki (1930 – 2001), uma das maiores personalidades públicas da história de Corumbá e parceiro do padre em todas as ações que culminaram na construção da Cidade Dom Bosco.

"O ‘Pequeno Herói' mostra às crianças que elas podem ter um futuro digno, pautado sempre pela realização de boas ações. Ao fazê-las conhecerem o bem, o projeto leva à prevenção, leva-as a pensar no presente e no futuro pelo bem que se faz", resume padre Ernesto, certo de que uma ideia simples vem, há tantos anos, mobilizando a sociedade corumbaense em nome do bem, da solidariedade e do amor.

(Texto publicado na Revista Cidade Dom Bosco – 50 Anos, lançada no dia 18 de outubro deste ano)