Para autoridades, padre Ernesto é um mestre das causas sociais

A voz dócil e suave da primeira-dama de Corumbá, Beatriz Cavassa de Oliveira, com a candura e sensibilidade de mãe, remete à expressão imaginada da mãe daquele menino de 15 anos que, em 1935, olhou para o rosto do filho pela última vez na estação de trem de Dornberk (Gorízia, Eslovênia). Talvez por esse espírito materno comum, ao falar do que representa a existência do padre Ernesto Sassida para a vida e a história de Corumbá, a secretária especial de Integração de Políticas Sociais do Município faz-nos imaginar a profundidade do olhar de Katerina Saksida quando viu o filho partir para o Brasil, certa de que jamais o veria em vida.

Diferentemente dos soluços e da tristeza típicos da partida, no entanto, Beatriz fala com entusiasmo, alegria e gratidão por sua terra ter sido a privilegiada em receber o sacerdote. Os olhos brilham ao dizer que hoje, 75 anos após a primeira passagem pelo Pantanal, ele é querido, admirado e respeitado por todos os corumbaenses, e morador do coração de milhares de famílias, pelo trabalho social, pelo carinho e pela doação incondicional aos mais necessitados. "Por meio da Cidade Dom Bosco, ele é o nosso grande parceiro na realização de programas que visam tirar crianças e famílias da situação de risco e vulnerabilidade social em quem se encontram. Mais do que isso, é um verdadeiro representante de Deus em nosso meio, um continuador da obra de Jesus Cristo", diz.

O tom emocionado não se restringe à primeira-dama, mas toma conta de outros corações cuja trajetória também se pautou pela preocupação com as causas sociais. É o caso do cirurgião dentista Lamartine de Figueiredo Costa, atual administrador do Hospital de Caridade de Corumbá e presidente do Clube dos Amigos do Padre Ernesto (CAPE). "Por meio desta obra, ele difundiu Corumbá para o Brasil e o mundo. Mais importante, porém, é que crianças de famílias pobres sobreviveram e sobrevivem graças à ajuda de pessoas que nem as conhecem, através da ponte que ele construiu", comenta, complementando: "É por isso que a história deste homem se confunde com a própria história da cidade".

Lamartine enfatiza ainda que as pessoas vêem o padre como o enviado de Deus para inspirá-las ao trabalho de inclusão social, de busca pela paz e pelo amor, mostrando que é possível construir uma sociedade justa por meio da educação com amor. É o mesmo pensamento do vereador Carlos Alberto Machado, para quem não há parâmetros que permitam medir a importância dele para Corumbá e Ladário. "Esta região seria outra, e não sabemos como seria, não fosse a vinda deste missionário para cá. Por tudo o que fez pela população, pela educação dos jovens e pelas pessoas mais carentes, a presença dele foi determinante para o nosso desenvolvimento humano e social", completa.

Com a serenidade que lhe é peculiar, o professor Hélio de Lima, secretário executivo de Educação de Corumbá, destaca que a vinda do Padre Ernesto para o Pantanal é um símbolo, por se tratar de uma pessoa que deixou sua terra e embrenhou-se em outros confins para trabalhar pelos outros. "E tendo isso como referência, ele priorizou a educação, acreditando que por meio dela as pessoas podem melhorar suas condições de vida, entrar para o mercado de trabalho e respeitar mais sua história", salienta, chamando a atenção para a ideia de que o trabalho dele sempre foi fundamental para o exercício pleno da cidadania, "pois as pessoas muitas vezes não tinham a atenção dos pais em casa, e com ele encontravam o carinho e o acolhimento de que precisavam".

No mesmo sentido, o prefeito de Ladário, José Antônio de Assad e Faria, ressalta que o lançamento do projeto "Pequeno Herói Ladarense" em 2009 é um exemplo da parceria entre aquele município e a Cidade Dom Bosco, que muito tem incentivado ações solidárias e humanitárias entre crianças e jovens. Para ele, a iniciativa é motivadora da liberdade, da solidariedade e da oportunidade contra o descaminho e a pobreza. "O padre Ernesto é um herói escolhido por Deus e a Cidade Dom Bosco, erguida por ele com coragem e sacrifício, é uma fortaleza que ajuda nossa cidade a combater a miséria e a melhorar a vida das famílias em situação de vulnerabilidade", afirma.

Um dos notórios exemplos dos resultados dessa obra, que deu condição às pessoas de voar alto, é certamente o ex-aluno e deputado estadual Paulo Duarte, que saiu das carteiras da Cidade Dom Bosco para ocupar importantes cargos na administração pública de Mato Grosso do Sul. Com a bagagem de vários anos na instituição, ele afirma: "O que falta no mundo sobra na Cidade Dom Bosco: o amor. No tempo em que o egoísmo prevalece, o padre Ernesto pensa primeiro nos outros e depois em si mesmo". Para o parlamentar, no entanto, mais do que as justas homenagens, é preciso atitude e envolvimento das pessoas para dar continuidade ao trabalho.

É nisso que acredita o prefeito de Corumbá, Ruiter Cunha de Oliveira, para quem são motivos de orgulho incalculável a amizade e a parceria com o sacerdote. Na opinião dele, não bastasse a grandeza de sua obra por si só, ela tem motivado inúmeras pessoas a adotar o trabalho em favor dos que mais necessitavam de carinho e atenção, especialmente crianças e jovens. "O padre Ernesto é uma figura que nos ensina, é um mestre na arte de nos despertar para a questão humanitária. Não é por acaso que ele nasceu no dia 15 de outubro, o dia consagrado ao professor. Ele é um mestre desde o nascimento, e todos os ensinamentos que fez, as crianças que ajudou hoje são cidadãos de bem, que contribuem para o engrandecimento da sociedade corumbaense", conclui.

(Texto publicado na Revista Cidade Dom Bosco – 50 Anos, ainda a ser lançada na próxima segunda-feira, 18)