Artigo: O poder que tem o carnaval de transformar uma cidade

Quando ouvi pela primeira vez, creio que nos primeiros dias deste ano, a afirmação de que Corumbá se preparava para realizar o melhor carnaval do Centro-Oeste brasileiro, e ainda, a melhor festa de todo o interior do País, confesso que recebi a informação com significativa descrença.

Quando ouvi pela primeira vez, creio que nos primeiros dias deste ano, a afirmação de que Corumbá se preparava para realizar o melhor carnaval do Centro-Oeste brasileiro, e ainda, a melhor festa de todo o interior do País, confesso que recebi a informação com significativa descrença. Sendo meu primeiro ano a participar da folia na cidade, pensei: "O melhor carnaval de toda uma região em Corumbá? Parece muita pretensão para uma cidade de menos de 100 mil habitantes em pleno Pantanal sul-mato-grossense".

A festa se aproximava, os eventos começavam, a programação ficou pronta e, finalmente, a estrutura começou a ser montada. Foi durante o ensaio técnico das escolas de samba, no dia 7 deste mês – uma pequena prévia do que seria o desfile -, que, ao ouvir pela primeira vez o rufar das baterias, comecei a perceber o que estaria por vir. O som único e destacado dos tamborins criava a primeira sensação de imersão no universo da maior e melhor festa brasileira, responsável por difundir em todo o mundo a imagem festeira e calorosa de nossa gente.

Os eventos foram se sucedendo. Já na noite de quarta-feira (10), o bloco Sandálias de Frei Mariano levou para a avenida uma mistura de folclore, brincadeira e religiosidade. Na noite seguinte, veio a coroação da Corte de Momo, abrindo oficialmente a festa, seguida de desfile de fantasias, blocos de sujos e show-baile na Praça Generoso Ponce, eventos que já transformavam as vias Frei Mariano e General Rondon em imensa praça pública abarrotada de foliões precoces e ansiosos.

Até que chegou a noite de sexta-feira (12), e Corumbá se mostrava definitivamente transformada pela agitação popular que, embora ‘incontrolável', dava apenas os primeiros passos. O bloco de sujos Cibalena, com seus milhares de foliões fantasiados sem qualquer vergonha, tomava conta de várias quadras das ruas Dom Aquino e Ladário. Com seus mais de 15 mil ‘travestidos e cafonas', parecia fazer o carnaval corumbaense definitivamente pegar fogo. Mas era cedo para ver a dimensão do que estava à frente.

Já na noite de sábado (13), os corumbaenses começaram a mostrar do que, de fato, eram capazes na hora da folia de Momo. Nada menos que 11 blocos oficiais em todas as formações e aparências possíveis – com ou sem fantasia e adereços, e imensa disposição – desceram a Frei Mariano e dobraram a General Rondon, embalados por suas baterias e levados por seus hinos tradicionais, fizeram gritar um público, proporcionalmente ao tamanho da população, de dar inveja a qualquer cidade que se propunha a realizar a festa.

Naquele momento, já era possível perceber que a expressão "melhor carnaval do Centro-Oeste brasileiro", tantas vezes repetida nos discursos e nos textos da imprensa local que seguia ferrenhamente os eventos, fazia pleno sentido e não era um mero exagero de auto-estima elevada. Mas foi no domingo (14), ao andar pela cidade e observar grupos de jovens, mulheres e crianças descendo e subindo ladeiras, empurrando carros alegóricos, transportando peças e fantasias, e um trânsito indizível de pessoas pelas ruas, em todos os recantos, que a dimensão se tornou real.

Corumbá então se mostrava puro carnaval. Era uma atmosfera, um cheiro e até um gosto de folia que de tudo tomavam conta. Moradores, turistas em seus carros prateados ou passeando a pé pelo Porto Geral, todos criavam outra cidade, um ambiente difícil de ver com tal intensidade mesmo em outros palcos tradicionais da folia. Dava gosto de ver como a comunidade se envolvia, entregava-se. O desfile daquela noite foi, então, o coroamento de todo esse clima espontaneamente produzido por um povo apaixonado por esta instituição brasileira, arrancando gritos e suspiros de mais de 40 mil espectadores que abarrotavam todo o longo circuito do carnaval.

Na noite de segunda-feira, a apoteose final, o delírio máximo e incontido. Desta vez, mais de 42 mil pessoas sambavam, cantavam, vibravam, choravam e enlouqueciam quando os surdos, cuícas, tamborins e tantos outros compassados instrumentos estrondavam pela avenida. Unidos da Major Gama, Unidos da Vila Mamona, A Pesada e Império do Morro proporcionavam um espetáculo de deixar qualquer um de boca escancarada, salivando. Fantasias, belos corpos sem qualquer fantasia, luxo, brilho, cores, luzes, formas e tons, absolutamente todos os elementos de um show irretocável.

Na última noite, terça-feira (16), já com totais contornos de nostalgia e saudade, veio o Carnaval Cultural, contando a história da ligação mágica e atemporal dos corumbaenses com esta estrondosa manifestação popular, remetendo aos anos 20, 30 do século passado. Desfile de corso, Bloco de Frevo, Bloco dos Marinheiros, Ala das Pastoras e Bloco dos Palhaços eram apenas algumas das atrações que traziam o colorido de várias gerações de foliões, e um jeito singelo de extravasar uma alegria que parecia ficar aprisionada durante um ano inteiro e explodir naquele momento.

Pode parecer exagero a minha fascinação com ‘delírios' e detalhes da festa, com o envolvimento e entrega dos corumbaenses, com a euforia e encantamento dos turistas, por ser a primeira vez que vejo e trabalho no carnaval da cidade, mas uma coisa é certa: a população de Corumbá merece cada palavra de elogio, com todo exagero possível, pela linda e deliciosa festa que foi capaz de protagonizar, bem como todos aqueles que trabalharam arduamente, durante meses, para que ela se concretizasse, em nome da Prefeitura Municipal – principal indutor desta marca intrínseca da capital pantaneira.

Toda expressão de congratulação pode ser extravasada e até mesmo exagerada aos corumbaenses, povo e poder público, que souberam construir ao longo dos anos – em uma ‘pequena cidade', quase escondida em meio à maior planície alagável do mundo – os alicerces e toda a estrutura para uma festa popular tão grandiosa, magistralmente organizada e saborosamente vivida em cada passo de samba e fio de fantasia.