Arraial do Banho de São João, festa única no Brasil

 Foto: Marcos Boaventura

  
Festa começou na sexta e movimenta o Porto Geral

A cidade está enfeitada, os fiéis se organizam em casas de rezas, famílias inteiras se reúnem para preparar o andor – muitos cumprem promessas ou, até, buscam um incentivo do santo para se casar. O Banho de São João em Corumbá, que começou sexta-feira, no Porto-Geral, é uma mistura de crendice e religiosidade, passando pelo profano, que faz da festa única no Brasil.

O ato de banhar o santo no caudaloso Rio Paraguai, que circunda a cidade vindo sinuoso do Mato Grosso, é o ponto alto da cerimônia, onde as ladainhas dão lugar ao batuque, que lembra carnaval, e as pessoas pulam de alegria segurando a vela acesa, descendo o piso de paralelepípedos da Ladeira Cunha e Cruz. A fé e a curiosidade atraem milhares de pessoas à beira do rio.

O ritual do “batismo” de São João tem influências portuguesas, mas foram trazidas a cidade pelos árabes, nos anos 80 do século 19. Organizado pelas comunidades, com o passar do tempo incorporou o cururu e siriri, ritmo e dança presentes às festas indígenas e africanas. Na década passada, sofreu descaracterização com a intervenção do poder público, mas voltou a ser uma festa popular.

Agora, o município iniciou um longo processo de documentação histórica para propor o título de patrimônio imaterial para um dos ícones do folclore nacional, juntando-se a viola-de-cocho, instrumento que anima o cururu e foi reconhecida em 2004 como bem cultural pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Será a perpetuação de uma tradição pantaneira.

A Prefeitura de Corumbá define com a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul o seu tombamento, que poderá ser a primeira manifestação popular do Estado beneficiada pela lei de proteção do patrimônio histórico, artístico e cultural assinada em 30 de maio deste ano pelo governador André Puccinelli. O passo seguinte será obter o registro de bem imaterial do Governo Federal.

Fortes emoções

Ao realizar um mapeamento dos festeiros que mantêm viva a maior e mais autêntica festa junina do Brasil Central, a prefeitura cadastrou 80 casas de rezas que organizam o ritual. A mais antiga festeira é Anne Aparecida Duarte, moradora no centro da cidade, que banha o santo há 70 anos. São, na maioria, famílias pobres, que cultuam o santo geralmente por uma graça alcançada.

Segundo historiadores, a tradição do Banho de São João foi introduzida na região por volta de 1882. O ato de levar a imagem do santo em procissão ao Porto-Geral, uma das referências históricas da cidade, é movido pelas crendices, superstições e fortes emoções. Dizem os mais antigos que o banho renova as forças do santo e abençoa tudo o que se relaciona com as águas e com o homem.

A descida dos andores, na noite do dia 23, segunda-feira, é o momento mágico, onde São João também assume papel de casamenteiro. Depois do banho sagrado, acontece o içamento do mastro com o sapateado dos cururueiros. Aqui, afloram todas as manifestações, mesclando alegrias e esperanças, a satisfação no cumprimento da “obrigação”. Na tarde do dia 24, o ritual envolve alunos das escolas municipais.